Depois de um tempo estando sumido da coluna – por questões
pessoais – retorno com uma matéria que dará sequência ao tema Tendências do
Inverno 2012, colocando em negrito mais uma artista atual.
Distante das luzes de Los Angeles onde nasceu, Chelsea Wolfe
cultivou-se guardada em seu porão empoeirado de neblina – que ela carrega na
sua imagem decadente e trevosa e um tanto desnorteada - até que no ano de 2010
deixou que a sua música visse a luz do Sol: The Grime and The Glow serviu pra
revelar a visão embaçada e sombria do mundo, sua estranha conexão entre todas
as coisas, e suas letras tratando da obscuridade e claustrofobia do seu
ambiente, deixando uma lágrima de melancolia escorrer lentamente, durando todas
as faixas. Essa espécie de amostra da beleza desses momentos fez da sua música
uma espécie de Vampiro sonoro, não repercutindo tanto quanto o seu segundo
álbum, intitulado Ἀποκάλυψις (lê-seApokalypsis) e chegou a
ser considerado entre os top 50 álbuns de 2011. Neste, Chelsea deixa ainda mais
claro a sua sonoridade, e sua intenção já nas gritarias de ‘Primal//Carnal’ –
primeira faixa do disco.
O
misto de inserções góticas e experimentais, e de sua voz que ora parecem
assombrações, ora sussurros e às vezes de forma afagável enchem os ouvidos com
uma paisagem desfocada e espirituosa, permitindo que o hermetismo tanto criado
por ela nos dois álbuns, iluminasse-se por frestas de luz atravessando a
cortina de neblina que impedia tal no seu primeiro trabalho, a balada gótica ‘Mer’
é a faixa que mais se afirma assim, e a Friedrichshain que lembra muito algo da
PJ Harvey, a sua capacidade de compor hits sem distanciar da sua identidade.
Chelsea consegue criar uma
atmosfera musical única, misteriosa, bizarra e ao mesmo tempo atraente, quase
hipnótica.
Sei que havia prometido uma série de matérias remetidas ao que
dita a tendência do Inverno deste ano, mas recentemente, tive uma alegre notícia
que torna-se agora uma alegre exceção para a postagem de hoje.
Ananda Lima, mais conhecida como nana (grafada assim mesmo
em caixa baixa), é uma cantora e compositora baiana que contrapõe influências
regionalistas na sua música para inspirar-se em canções francesas dos anos 30,
e em nomes como Serge Gainsbourg e Georges Brassens, traduzindo numa música
doce e harmoniosa.
nana estudou jornalismo e passou quatro meses graduando-se em São Petersburgo,
Rússia, que foi onde tudo começou para a sua música, pois lá teve a
oportunidade de gravar em estúdio quatro composições suas, acompanhada de
músicos locais. De volta ao Brasil, decide estudar composição e regência e
participa das trilhas dos curtas Roupas no Varal (de Maurício Lídio), em
co-produção e sob a orientação do compositor David Tygel (Boca Livre) e Lemon
Lips (de Marccela Vegah), com a colaboração de João Vinícius, que a partir
de então passa a ser seu colaborador musical, juntamente com um terceiro
membro: o computador. Nele, nana programa bateria, percussão, baixo e efeitos
de timbres e texturas, para posteriormente acrescentar a parte orgânica de sua
música, como piano, escaleta, guitarra, teclado e voz.
Além de todo o trabalho de produção musical, há uma grande
preocupação no conceito visual, que emprega influências como ilustração
infantil e a montagem russa soviética nos seus elementos gráficos, que você pode
conferir no videoclipe de ‘expressionismo
alemão’, sua atual música de trabalho.
Enfim, com toda essa informação dita, chego aos finalmente:
No último domingo, nana publicou um vídeo – que faz parte da sua série de
músicas usando cavaquinho – interpretando de forma belíssima uma antiga
composição minha chamada ‘I like the Stones (they break my bones)’. Logo na
primeira vez que ouvi sua música, pensei que essa minha composição ficaria
linda na sua voz açucarada e sussurrada, e eu estava mais do que certo. Então,
apreciem essa canção, que faz seis anos que foi composta, e que agora ganha uma
nova roupagem, Ouvindo nana:
Pra terminar, nana está em estúdio gravando seu disco,
fiquem de olhos e ouvidos atentos!
Segue
uma sessão de posts inspirados nas tendências para o Inverno deste ano. Inicio
assim, com o tema retrô/alta costura, que tem a sua inspiração nas estrelas
hollywoodianas e arte design nos anos 60.
Depois da morte precoce de Amy Winehouse, iniciou-se um estouro de 'novas divas'-
começando por Adele - e tanto a industria quanto o público tem voltado os seus
olhos expectantes ao surgimento de cantoras que não somente surpreenda musicalmente,
mas que traga um diferencial... Algo que
fuja de uma cantora com 850 bailarinos em volta de si, tentando erotizar.
Eis
que, no meio disso todo, ressoa uma voz carregada de nostalgia - e sensualidade
inocente - de alguém que pôs-se em coesão ao primeiro nome de Lana Turner - a
Breatrix Emery do filme 'Dr. Jekyll and
Mr. Hyde' (O Médico e o Monstro, no Brasil)
do
norte-amerricano Victor Fleming - e ao carro mais famoso da Ford: Lana Del Rey.
Atuando
entre pólos através da crítica, Elizabeth Grant (seu nome real) mantém-se
alheia, fazendo com que a mesma continue com seus ouvidos atentos na voz grave e carregada da melancolia dos anos 20 - de
donzela romântica, que é um dos pontos que mais dividem as opiniões devido às
dúvidas e rumores sobre sua honestidade - nos singles que segue emplacando com
seu último trabalho, 'Born to Die'.
Retornando
à polêmica da sua imagem, carregada do retrô e inspiradas nas cantoras e
atrizes dos anos 20 até os lábios, literalmente (Lana aplicou botóx para
assemelhar-se ainda mais ao estilo blasé de sua interpretação no palco),
questionam até que ponto sua imagem é vendida - se a sua música é real ou se é
só mais um produto.
Real
ou não, Born to Die torna-se empolgante nas suas primeiras seis faixas, mesmo com
vocais protegidos por doses imoderadas de artifícios eletrõnicos - conseguindo
incitar até uma espécie de comoção à cantora, em relação às críticas ferrenhas
que vem recebendo. Mas, chega 'Dark
Paradise' e tudo desmorona: a nostalgia encontra um lugar-comum morno e
patético, e segue assim até o fim, com
exceção de Radio que é uma das melhores faixas do disco, finalizando com os excessos eletrônicos de This is What
Makes Us Girls.
Enfim,
não pode-se negar que a moça é, além de um grande investimento, um talento
pelas suas composições que fogem do lugar em que o pop tem se encontrado nos
últimos tempos.
Antes de qualquer assunto musical, gostaria de dar as
boas-vindas aos leitores que a partir de hoje passam seus olhos por essa página,
e contar um pouco do que me motiva sustentá-la. Assim como perceberão certo
intimismo na minha escrita, essa característica encontra-se também na forma
como irei tratar a música aqui – impressões, sensações, e relatos de
experiências sonoras. Nem obstante e nem imerso à crítica.
Além do que acontece no mainstream da música, falarei
bastante também do meio underground, da música de vanguarda – que pouco é
mencionada no Brasil. E é a partir dela que abro as cortinas para
apresentar-lhes o primeiro álbum de 2012 que suscitou estes dedos a lavrar
sobre: The Gnostic Preludes.
O pré-requisito essencial da filosofia gnóstica é o postulado da existência de uma "entidade imortal", que
não é parte deste mundo, que pode ser chamado de Deus interno, Centelha divina,
Crístico, divina essência etc, que existe em todos os homens e é a sua única
parte imortal. Os gnósticos consideram que o estado do homem neste mundo é
"anti-natural", pois ele está submetido a todo tipo de sofrimentos.
Para eles, é necessário que o homem se liberte deste sofrimento, e isto só pode
ocorrer pelo conhecimento.
Aqueles que estão familiarizados com a figura do músico
nova-iorquino John Zorn, sabem do seu saxofone estonteante, gritando notas que
se agitam em seus dedos céleres – como, por exemplo, em Painkiller, formada com
um membro da banda de grindcore Napal Death. Mas, a outra extremidade de sua linha tênue de
trabalhos são menos conhecidas – como álbum Femina, O’o e alguns trabalhos com
o seu projeto que mistura jazz com música klezmer, vinda da sua raiz judaica –
que ainda assim, como a outra extremidade – arranca sulcos profundos na
consciência. É o que acontece no meditativo The Gnostic Preludes, seu mais
recente trabalho lançado pelo seu próprio selo, o Tzadik (que conta com uma
lista de músicos de vanguarda).
Nesse mais recente trabalho, Zorn conta com três
instrumentistas para a execução de seus temas e arranjos escritos, são eles:
Bill Frisell (guitarra), Carol Emanuel (harpa) e Kenny Wollesen (vibrafone e
sinos). Essa formatação torna-se um aspecto interessante pois, pensando primeiramente
nas cordas, temos um trabalho de contraponto entre a guitarra e a harpa, e o
vibrafone e sinos ressoando e cantando espaços deixados pelos outros
instrumentos. Outro ponto é o aspecto sonoro metálico, que impõe uma sensação
de frieza nas notas e nuances, digna de um filme mudo, denso e neblinoso. Essa
densidade leve dos vários timbres talvez seja responsável pela lareira
inconsciente que se acende, quando se escuta as Oito faixas que compõem o disco:
tirando-te de um estado, mas não do local onde este se encontra. É confortável
e incitante ao mesmo tempo, vindo daí a característica meditativa do disco –
além do que diz o próprio título e significado do gnosticismo: não é somático,
mas interior e profundo.
Dentre todas as faixas, destaco Prelude 1: The Middle
Pillar, que abre as portas da percepção do álbum de forma brilhante; Prelude 3:
Prelude of Light e sua marcante abertura e desenvolvimento; Prelude 4:
Diatesseron, muito próximo ao trabalho de Zorn com o Acoustic Masada e da
música klezmer; e Prelude 8: The Invisibles que finaliza o disco deixando soar
uma espécie de despertar sonâmbulo de um transe conservado até então.
Sobre John Zorn
Nasceu na cidade de
Nova Iorque e ainda quando criança aprendeu a tocar piano, violão e flauta. Sua
família tinha gostos variados, dos quais ele ganhou apreciação pela música
clássica e world music através de sua mãe, e jazz e ‘chansons’ francesas
através de seu pai. Despertou seu interesse pela música experimental e
avant-garde através de uma gravação do compositor Mauricio Kagel – um dos mais
inovadores autores da música pós-serial.
Estudou música com
Leonardo Balada e durante esses anos, aprendeu sozinho sobre orquestração e
contraponto, transcrevendo trilhas e usando-as em sua própria composição, numa
espécie de colagem e transposição para o seu íntimo universo sonoro. Iniciou
seus estudos de saxofone por influência do trabalho de Anthony Braxton, e à
partir daí incorporou elementos do free jazz e de trilhas para desenho animado,
inspirado por Carl Stalling.
Músico prolífico, Zorn
trabalha em vários projetos musicais, e além dos citados aqui, apresenta-se em
jam session com Lou Reed, Mike Patton (Faith No more) e outros grandes nome.
Esteve no Brasil
recentemente para tocar com o Masada, seu trabalho mais ativo no momento.